quinta-feira, outubro 28, 2010

(de sábado)

A deturpação dos sentidos,
do sentido,
de tudo.

Aproveita-se a inspiração
da desinspiração
para expirar
mais um pedaço
de realidade
.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Algures perdi a noção dos meus apontamentos. À medida que retomo novas rotinas velhas, dou por mim sem saber o que é mais correcto valorizar, se o tempo ou se a passagem do tempo. Vasculho (pouco), num absurdo estremecer de bolsos, ciente com o gôto das respostas fúteis, transposições que se sentem mãos na garganta. Farto destes posts estou eu, e da deriva inútil dos pequenos berlindes que se intrometem no jogo da memória, laivos de luz intangível, escondida dentro de pequenas e estúpidas circunferências.

Triste como nunca da resposta incutida. O alinhamento, astros estagnados em ondulação bem regrada, a mortandade de usar o tempo, falsos rubis nunca rubros.

A palavra "nunca" surgindo sempre em reforço do que não era ou será. Escolhas ridículas amontoando-se num grande baralho raso. Pedregulhos irregulares e pesados.

Nisto, sinto que encolho. Caibo mal em mim. E transbordo.

Para trás, alguma viscosidade mais deste preparado pouco solúvel. Que escoa assim mais um pouco.

«Amanhã, fará sol ou chuva?»

(Gira a alma sobre si mesma.)

terça-feira, outubro 05, 2010

Que nos tentemos agarrar a algo, a prova de que já se nos escorregou da mão.

terça-feira, abril 27, 2010

(De há dois domingos:)

O mundo aterra defronte; a luz pálida empresta alguma realidade aos prédios opacos. Como um enjôo, as primeiras pessoas convulsionam já levemente os passeios e passadeiras. Padece a cidade daquela azia anónima que antecede a azia própriamente dita. Por sob este cenário mal iluminado, os actores acompanham o guião a meia emoção. Mal reclinado numa cadeira gasta, um poeta pretende a cenografia respectiva. Tenta pintar o verbo, enquanto a engrenagem se não instala em definitivo, exterior e maquinal como um comboio em que o todo embarca rumo a uma paragem qualquer. O destino de hoje, sem ser incógnito, é supérfluo de inviolável. Há maresia naquele gingar de carruagem, e nas guinadas pré-programadas pelo percurso. Abafada e inodora, mas maresia. O enjôo aumenta.

Entre os demais passageiros, hipnotizados pelo instalar-se da frescura e luminosidade matutinas, alguém deixa pousar brandamente a sua mão de encontro ao vidro. Como que algo de sagrado emana daquele pequeno parque verde, que em câmara lenta se perde com dois ou três peões que o atravessam plácidamente, com o casal de namorados que nele sorri de mãos dadas, e mesmo com o sem-abrigo que em seus bancos viu um último reduto, senão de conforto ou liberdade, pelo menos deles tão ilusório quão o ar frio e os sons do tráfego não distante o permitem. A mão deste passageiro atípico está aberta sem estar espalmada - talvez num reflexo pré-consciente que, como uma pedrinha, veio desenhar círculos imperfeitos no lago da falta de esperança. Os restantes passageiros prosseguem nas mais diversas posições - sentados, debruçados sobre o seu corpo, ou agarrando a pouca firmeza o apoio para quem vai de pé, procurando em suma dar alguma continuidade ao repouso que deixaram para trás. Mas na alma, os seus braços estão caídos, como marionetas que aguardam pacientes o início do espectáculo a que obedecerão, com as doses de existência e gesto que se entender apropriadas. Nisto, as portas abrem-se, e chega de fora, por entre o som de passos e pedidos de licença, um eco antecipado das palmas que alguém lhes há-de bater.

Após se ver arrancado da sua espera letárgica por alguém que não conseguia passar, o passageiro afasta-se bruscamente num pedido de desculpas que cai seco como a mais recente rima de um poeta triste. "Estava difícil..." alguém lhe vocifera de trás. Se está. Tal como uma palavra não é a emoção que tenta exprimir, a presença naquele apinhado de gente é tão irrelevante que chega a ser absurda. Tal como a rima é só dois sons parecidos em promessa de harmonia, a conversa circunstancial com um conhecido que acaba de entrar é um placebo fraco para esta ruidosa paisagem sonora. Tal cacofonia dispersa é dura como uma rígida quadra de um soneto trágico. De significações que se perdem na distância, há como que uma paragem adicional algures neste labirinto ferroviário, e da qual por mais transbordos que se faça, não se consegue sair. Por toda a encruzilhada da cidade, as sombras dos escritórios ou das habitações caem sobre as suas mil estradas e ruelas e revelam um beco infinito e omnipresente. Um gato passa veloz, ao abrigo dos cinzentos pouco nítidos. Dois namorados beijam-se no parque já longínquo. Alguém mete por uma viela estreita e mal iluminada, em cuja placa se pode ler "Beco da Solidão".

O sino de uma escola faz-se ouvir nas redondezas. Sem pedir licença, um míudo apressado corre para fora do comboio. A cidade despertou sem pedir licença.

terça-feira, março 02, 2010

Percebo hoje com agudeza aquela sensação indefinida que veste um fino manto de tristeza.

É no fundo um certo tédio, que se retorce sobre si, procurando à sugestão da ligeira brisa definir a cócega na pele, sublimar a emoção o que é ar, a côr o que é baço. Até que por fim se queda à beira de restícios de intensidades do passado, como quem fita o abismo de um topo tal que a paisagem é indefinição, névoa acinzentada. Como quem se tenta apropriar de um reino mágico, absurdamente paralelo a tudo. E assim se desvincula da geometria de passar... Da insuportável ortogonalidade de ser com sonhar.

Oh, albergar esta noção de que por sob o tempo e a vida, trago ainda esta gélida paisagem que é o Inverno de ter outra forma, e o qual teimo em não hibernar. Sinto, quando vivo, quando falo, um vago arrepio dessa minha verdade refrigerada, subindo-me à espinha pela distância a que estou dos momentos.

E sobre isto, visto um majestoso manto que apelido de sentimento. Fino como um desenho. Não aqueço.

domingo, fevereiro 07, 2010

Algo me inspira. Sinto qualquer coisa de exterior a tocar-me daquela forma. Ao de leve, mas no centro dos sentidos. Prometendo agitar o berço do repouso do que é.

Quero agarrar esta mão invisível. Quero escrever o poema, pleno da vida que bate com o seu toque. Sinto os versos cardíacos a sussurrar: "Mais... mais!..."

Não sei juntar páginas soltas ao livro do dia-a-dia. Como viver esta arte, e ultrapassar a matéria, a realidade (acordos e expectativas) ?

Sei só que uma mão suave fez bater de rompante o coração. Uma mão tão forte que o faz sem o querer, sem o saber sequer. Uma mão que tinge de vermelho o pôr-do-sol e pinta de espuma as ondas, numa praia que era simples harmonia.

Uma mão veio desafiar o quadro. As ondas ressoam cá dentro. Num apelo lindo e escondido como o de um búzio. Enrolar-me na espuma e aceitar a maré - que ora arrasta consigo, ora devolve à orla costeira.

Sublime e poderosa Natureza.

E um quadro inacabado...

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Fluxo intermitente.
As comportas abrem-se,
devagar.
Gotas de emoção salpicam
o trecho curvo
e as margens são muros
de pedra
esculpida fustigada.

Passagem parcial,
rastos de pele em sangue,
restos.
Folha a bóiar encharcada,
Estupefacção da ânsia,
Desenho classicista,
Agonia do contraste.

Madeira embarcação,
árvore horizontal,
árvore deitada abaixo,
terapia ou amnésia -
A espuma e o medo
tingidos de branco
desde a quilha
(para trás).

Transparece azul
a fundura turva do rio
sob o espanto,
distorção ondulada
(reflexo e percurso).
Da dôr a viagem,
da vida um segredo
profundo.
Dissipação.